sexta-feira, 14 de Março de 2008

Funeral de Sebastião Opus Night


Foi hoje a enterrar o falecido, porque assassinado, Opus Night. Não houve manifestações públicas de pena, sentidas ou fingidas. Se alguma coisa, as pessoas pareciam aliviadas. O epitáfio escolhido para a campa coincidiu com o aforismo que Sebastião Opus Night aplicava a todas as circunstâncias da vida: "A pior desgraça dum bebedor é deixar o copo a meio." Invariavelmente, depois de proferida esta frase, Opus Night pedia uma dose reforçada do que estava a beber e contava como aprendera a valiosa lição de vida no preciso momento em que terminara a sua relação com Maria da Paz Soares e com os seus quatro lulus. Enfim, viveu e morreu, é um bom resumo. Por mim não tenho mais vontade de falar de semelhante criatura. Para os mais curiosos, aqui deixo o relato de Cardoso Pires, que também lhe ouviu a história da Pazinha vezes sem conta:

«"Durante o seu breve romance com Maria da Paz Soares, Sebastião Opus Night antecipou por algumas horas o seu meridiano do poente para ir arejar as cachorras da amada, quatro ao todo e todas caniches de lombo tosquiado, cauda pequenina em forma de borla de pó-de-arroz e cabeleira aos caracóis com dois olhinhos pestanudos para enternecer. Tinham qualquer coisa de coristas de teatro e eram tão mimosas e tão iguais que Copus Night, ao despertar, duvidava de si próprio e pensava que estava a ver em quadruplicado. Mas à medida que a noite se aproximava começava a distinguir uma por uma e dava-lhes o nome que lhes competia. (…)
Deteve-se diante dum cartaz de parede: Circo Walther, A MULHER SEREIA. O Fenómeno do Século. “Do sexo”, corrigiu ele, o exemplar à vista era uma valquíria anfíbia capaz de fazer cantar todos os peixinhos do Tejo. Ancas poderosas, uma boca ávida luminosa como a da Pazinha Soares – tal qual a Pazinha Soares, sem tirar nem pôr. Os mesmos seios redondos, a mesma exuberância, o mesmo olhar nocturno, aquilo sim, aquilo é que era um animal de estimação, deixemo-nos de coisas. E dali até à Pazinha bastava uma bandeirada de táxi, duas voltas na chave da porta e vamos mas é ao assunto antes que o tempo arrefeça.
Foi. Uma vez sem exemplo, o corujão ia regressar ao ninho à hora dos respeitáveis. Encontraria, já se vê, tudo no primeiro sono. Ou nem isso porque ainda haveria janelas iluminadas lá na rua e talvez uns restos de serões de televisão. Mas foi.
Quando acendeu a luz do quarto encontrou Pazinha Soares na cama, ao lado de um indígena qualquer, ambos mudos e esparvoados como se acabassem de ver entrar um fantasma. Estendidas no chão, as quatro cadelinhas deitavam-lhe um olhar ternurento, muito calmo. Parecia que sorriam, as putas. Sebastião Opus Night, noblesse oblige, fez peito. Pronunciou um insulto em mirandês e saiu porta fora, “Já cá os tens”, disse em voz alta ao chegar à rua, apalpando a testa. “Ainda não cresceram mas já cá os tens. Quem te manda a ti, Sebastião, andar a passear cadelas?”»

P. S. para breve actualização: Conforme soube no funeral (não sem algum embaraço, mas afinal era preciso preencher as horas mortas), esta Pazinha foi para os Estados Unidos. Uns diziam que fugiu por medo do Opus Night, outros diziam que seguiu, como tantos outros, atrás do sonho americano de manter uma relação polígama com o consentimento das partes envolvidas, das muitas partes envolvidas. As cadelas foram escrupulosamente afogadas no Tejo, não se sabe bem por quem.

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