
«"Durante o seu breve romance com Maria da Paz Soares, Sebastião Opus Night antecipou por algumas horas o seu meridiano do poente para ir arejar as cachorras da amada, quatro ao todo e todas caniches de lombo tosquiado, cauda pequenina em forma de borla de pó-de-arroz e cabeleira aos caracóis com dois olhinhos pestanudos para enternecer. Tinham qualquer coisa de coristas de teatro e eram tão mimosas e tão iguais que Copus Night, ao despertar, duvidava de si próprio e pensava que estava a ver em quadruplicado. Mas à medida que a noite se aproximava começava a distinguir uma por uma e dava-lhes o nome que lhes competia. (…)
Deteve-se diante dum cartaz de parede: Circo Walther, A MULHER SEREIA. O Fenómeno do Século. “Do sexo”, corrigiu ele, o exemplar à vista era uma valquíria anfíbia capaz de fazer cantar todos os peixinhos do Tejo. Ancas poderosas, uma boca ávida luminosa como a da Pazinha Soares – tal qual a Pazinha Soares, sem tirar nem pôr. Os mesmos seios redondos, a mesma exuberância, o mesmo olhar nocturno, aquilo sim, aquilo é que era um animal de estimação, deixemo-nos de coisas. E dali até à Pazinha bastava uma bandeirada de táxi, duas voltas na chave da porta e vamos mas é ao assunto antes que o tempo arrefeça.
Foi. Uma vez sem exemplo, o corujão ia regressar ao ninho à hora dos respeitáveis. Encontraria, já se vê, tudo no primeiro sono. Ou nem isso porque ainda haveria janelas iluminadas lá na rua e talvez uns restos de serões de televisão. Mas foi.
Quando acendeu a luz do quarto encontrou Pazinha Soares na cama, ao lado de um indígena qualquer, ambos mudos e esparvoados como se acabassem de ver entrar um fantasma. Estendidas no chão, as quatro cadelinhas deitavam-lhe um olhar ternurento, muito calmo. Parecia que sorriam, as putas. Sebastião Opus Night, noblesse oblige, fez peito. Pronunciou um insulto em mirandês e saiu porta fora, “Já cá os tens”, disse em voz alta ao chegar à rua, apalpando a testa. “Ainda não cresceram mas já cá os tens. Quem te manda a ti, Sebastião, andar a passear cadelas?”»
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