quarta-feira, 30 de Abril de 2008

Sorrisos de uma noite de Verão



Lúcio Ferro - A noite de Verão tem três sorrisos. Este é o primeiro, da meia-noite até à madrugada, quando os jovens amantes abrem os seus corações e o seu ventre. Olha ali, no horizonte, está um sorriso tão suave, tens de estar muito quieta e atenta para conseguires vê-lo.
Madame Satã - Mas o que dizes? Verão? Estamos na Primavera... Tu e ele andam numa de Bergman, estou a perceber. Primeiro o Fanny e Alexander e agora este. Tanto pastiche até parece falta de imaginação.
Lúcio Ferro - Isso emocionou-te, minha querida?
Madame Satã - Não. Até porque eu nunca fui uma jovem amante.
Lúcio Ferro - Olha querida, tens de te contentar com a tua sorte. Há apenas alguns jovens amantes no mundo. Quase se podem contar. O amor aconteceu-lhes como uma dádiva e um castigo.
Madame Satã - Pronto desisto. Convosco nem se pode falar. O que é que digo agora? Ah... E o resto de nós?
Lúcio Ferro - O resto de nós!
Madame Satã - O que nos acontece?
Lúcio Ferro - Invocamos o amor, chamamo-lo, suplicamos e gritamos por ele, tentamos imitá-lo, pensamos que o possuimos, mentimos acerca dele. Por vezes também matamos por ele, com uma pistola, durante uma discussão e com testemunhas.
Madame Satã - (Suspiro) Mas não o temos.
Lúcio Ferro - Não, minha doçura. Negam-nos o amor de amar. Não temos essa dádiva.
Madame Satã - Nem o castigo.
Lúcio Ferro - Nem o castigo.

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