terça-feira, 22 de Abril de 2008

"[U]ma escada apoiada na terra, cuja extremidade tocava o céu"

LÚCIO FERRO - Então, querida, sentes-te melhor?
MADAME SATÃ - Sim, hoje estou melhor. Mas já te disse para evitares esse tipo de tratamento. Sabe-se lá se ele nos ouve de algum canto.
LÙCIO FERRO - Ele nem desconfia. Também estava escuro no teu quarto, naquela noite. Depois desse episódio, eu e ele nunca cortámos relações, muito pelo contrário. Tantas vezes me contou ele a história da Pazinha com o “indígena qualquer”. Sempre me deu vontade de rir. E há pouco tempo veio ter comigo, com aquela vozinha dele, e disse: “Lúcio, eu e a madame Satã iniciámos um diálogo virtual na Internet. Uma vez que és meu amigo há tantos anos, talvez fizesse sentido tu participares. Pensa nisso.” E a melhor parte nem é esta…
MADAME SATÃ - Ele não disse o meu nome verdadeiro?
LÚCIO FERRO - Pois, é isso. Quando lhe perguntei quem era a madame Satã, ele disse que era alguém que ele conhecera pela Internet e que “seguramente teria outro nome que ele desconhecia”.
MADAME SATÃ - Foi por email que retomámos contacto, sim. Eu mudei o nome, porque ele não me responderia de outra forma. Sei como ele é.
LÚCIO FERRO - Mesmo passados vinte anos?
MADAME SATÃ - Mesmo passados trinta. Foi ele que me afogou os cães, passado aquele tempo todo, julgas o quê?
LÚCIO FERRO - Quando ele te viu ao vivo, para as vossas reuniões, ele não te reconheceu?
MADAME SATÃ - Ele nunca deu mostras disso e sempre me tratou por madame Satã. Às vezes, pensava que sim, que ele me reconhecia e que agia assim por orgulho ou por não ter decidido que outra atitude tomar - o Sebastião sempre foi lento a manifestar sentimentos. Mas não tenho a certeza de nada, com a quantidade de anos que passaram por nós.
LÚCIO FERRO - Vamos deixá-lo. Morto já ele está. A polícia aceitou o meu depoimento. Tu já perdeste esse hábito de esfregar as mãos. Eu gosto de ti e tu gostas de mim. (pausa) Gostaste daquela piada da tua ida para os Estados Unidos em busca de vários maridos?
MADAME SATÃ - Por acaso, não achei grande graça. Andava para te dizer isso.
LÚCIO FERRO – Oh, não te ofendas. Era sobretudo para despistar a polícia.
MADAME SATÃ - Muito credível a tua história, deixa estar. Para os Estados Unidos, eu? Para a Califórnia, queres ver?
LÚCIO FERRO - Eles largaram-te, não foi? E não te teriam largado se soubessem da tua ligação com o morto. Nem desconfiam. Nem eles nem o Sebastião sabem de coisa nenhuma.
MADAME SATÃ - Como o Sebastião participa de duas realidades, dos vivos e dos mortos, quem te diz a ti que ele não conhece tudo o que há para conhecer, todos os mistérios? Se assim for, a partir do momento em que morreu, ele passou a saber quem tu és e quem eu sou.
LÚCIO FERRO - Não podemos sabê-lo com certeza, vivos que estamos os dois. Mas a morte não pode trazer nenhuma vantagem e só deve aumentar a confusão. Ele não deve saber de nada, Maria da Paz, porque, se soubesse, já teria divulgado tudo.
MADAME SATÃ - Não sei, não. Ele é lento no sentir.
LÚCIO FERRO – Já tinhas di… Que barulho foi este nas escadas?

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