
Aquilo que peço aos nossos leitores, se é que algum dos poucos que seguiam este blog antes das férias já se apercebeu do nosso regresso, é um pequeno intervalo dos disparates que costumam acontecer neste vosso espaço para falar de um assunto muito sério e que vem noticiado aqui. É uma vergonha fazer parte de um país onde é possível despedir alguém, porque esse alguém é portador do virus da Sida ("por justa causa"). Tem havido campanhas atrás de campanhas médicas a dizerem que não faz mal conversar com pessoas que têm esta doença, porque o virus não se transmite pelo ar; que não faz mal abraçar doentes com sida, porque o vírus não se transmite pelo toque; que não faz mal beijar ou comer a partir do mesmo prato ou usando os mesmos talheres, porque o virus não se transmite pela saliva - E AGORA ISTO? O sinal que o Estado deu, por meio das sucessivas decisões de juízes, foi o de que devemos evitar o contacto com doentes destes. Isto traz à memória a figura andranjosa do leproso na Idade Média, que era obrigado a mendigar o resto da vida e a assinalar a sua passagem por meio de sinetas, quando a lepra não se transmitia pelo toque ou pelo ar (como se veio a descobrir muito mais tarde). Na Idade Média ninguém sabia disso e agiam assim à cautela. Os espíritos que (con)viveram com esse estado de coisas têm isso que os iliba, mas, hoje, sabendo nós com segurança de que forma esta doença é transmitida e quais os meios de prevenção, temos a obrigação MORAL de agir de modo distinto. Aquilo que se exige numa sociedade esclarecida e justa é que se tratem os seus doentes de forma adequada, digna, humana.
Depois, os avanços médicos das últimas décadas no combate a esta doença permitem prolongar imenso a vida dos doentes (já houve inclusivamente quem se referisse a esta como uma doença não fatal, mas crónica). Se os doentes vivem muito mais tempo e em boas condições, a sociedade tem de arranjar meios de os integrar, não de os segregar. O que se pede é a mesma igualdade de direitos que nunca foi negada a estes cidadãos antes de contrairem a doença. Não lhes dificultem mais a vida, porque isso é imoral. É como estar a atirar pedras a uma pessoa fragilizada - é fácil, é primário, é cobarde.
[Esta matéria é grave e, num país normal, exigiria que o Presidente da Republica fizesse uma declaração pública que repusesse a confiança nas Instituições e na Justiça. Como o país é de brandos costumes, ele anda aí numa de pateta aos caídos.]
4 comentários:
Portugal e o 4o pais da Europa com mais casos de HIV registados por ano...E natural que as pessoas comecem a pensar se nao sera verdade que se transmite pelo ar, ja que em termos de tratamento e manutencao da qualidade de vida dos seropositivos Portugal esta na linha da frente. Isso deixa-nos uma questao..Que acompanhamento (alem do acompanhamento medico) esta a ser prestado a esses pacientes?Porque e que, segundo as estatisticas, por cada infectado temos 5 novos casos?Devemos reflectir sobre isto e pensar o que e mais urgente salvaguardar, se a privacidade/sigilo dos seropositivos ou as vidas/saude das pessoas que ainda nao estao infectadas e que se pode evitar que venham a estar.
sr. anonimo , a menos que tenha provas , nao diga que a assistencia a seropositivos em portugal esta na linha da frente....nao diga isso pq, eu sou seropositivo ha 6 anos e estou fora do pais ha 2, e quando cheguei ao pais em que estou é que me informaram que os medicamentos que estava a tomar nao estavam a fazer efeito....conclusao o meu medico do santa maria , que por acaso é o chefe do departamento de hiv (5 andar quem quer pode ir confirmar) , me medicava , com medicamentos que nao faziam efeito E PASSOU UM ANO A DIZERME: VAMOS LA A VER SE NA PROXIMA OS NIVEIS JA ESTAO MAIS BAIXOS.......quando cheguei aonde estou é que me disseram que nao podia continuar com akela medicaçao pois o organismo ha muito que nao aceitava a mesma. este medico , (sem ofensa) tem peto de to anos, uma conversaçao de chéché, e é idolatrado e beijam-lhe os pés ali dentro pq ele é o chefe do departamento.....duvidas?
nota: apesar de ter id no blogspot ponho anonimo nao vá o senhor querer-me pôr em algum aviario para doentes ou coisa assim......
Primeiro senhor anónimo, eu não acho "natural" que as pessoas comecem a achar que a Sida se transmite pelo ar, porque todos os especialistas na matéria (e olhe que há muitos, até nobéis) me dizem que não é assim que se transmite. Tem de haver contacto sanguíneo, entende? Mesmo a situação de um cozinheiro seropositivo se cortar durante a confecção de uma refeição (situção aliás que aliás justificou a sentença) significa um risco reduzidíssimo de transmissão do virus. Porquê? Porque o virus da Sida não sobrevive quando exposto ao ar. Segundo um médico da especialidade o risco de transmissão mesmo com este cenário nem deve ser considerado (nas palavaras desse mesmo médico o risco era igual ao de uma pessoa ir na rua e cair-lhe um cometa em cima. São coisas que não acontecem). A ignorância gera medo, é natural. O que lhe aconselho é que se informe convenientemente antes de iniciar uma caça às bruxas.
PS: Já agora, já alguma vez ouviu falar de algum doente com Sida que não soubesse de que modo tinha sido enfectado pelo vírus? A sua resposta negativa (igual à minha de resto) deve fazê-lo reflectir melhor nalgumas coisas que diz.
Segundo senhor anónimo, não se preocupe que não o vão fechar em nenhuma gaiola só porque está doente. Era o que faltava. Nem toda a gente pensa como o primeiro senhor anónimo. Hoje em dia a informação está ao alcance de um clique, o que é neste como noutros casos uma sorte. Continuação de boa sorte com os seus tratamentos.
ERRATA do primeiro comentário que deixei aqui: palavras não "palavaras" e infectado e não "enfectado".
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