terça-feira, 20 de Maio de 2008

Are you talking to me, José Gomes Ferreira?

“[Nessa época] vivia exclusivamente de traduzir fitas e escrever para revistas, jornais e jornalecos. Enchia números inteiros da Imagem com artigos assinados por anónimos pseudónimos vários (Álvaro Gomes, Alberto Fernandes, Fernando Soares, «Caçador de imagens», etc., etc.), inventava crónicas semanais para o Kino e o Notícias Ilustrado, intrigas policiais para não sei onde - literatura alimentícia, em suma, hoje por felicidade esquecida e oxalá ninguém se lembre de ressuscitá-la amanhã. (Aproveito o ensejo para proibir gravemente essas hipotéticas exumações, em geral efectuadas por mini-eruditos, investigadores de larachas inúteis.)”

José Gomes Ferreira, “Nota Final da 2ª edição”, in Aventuras de João Sem Medo – Panfleto Mágico em Forma de Romance, 6ª ed., Lisboa: Diabril, 1976, p. 226.

- Não me chame eu Lúcio Ferro se não me alimentar da tua literatura alimentícia. Onde come um, comem dois (risada cava, infernal). Nem sabia eu que tinhas escrito para os jornais e com os pseudónimos que tu fazes o favor de enumerar. Adiantas o serviço a este investigador das tuas larachas inúteis. Muito obrigado, ó Zé.

quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Luiz Tatit

O concerto desta noite na Culturgest foi mais ou menos assim:

quarta-feira, 7 de Maio de 2008

Estados Unidos, esses imitadores (de escândalos mediáticos portugueses)

Lembram-se do escândalo das chamadas urgentes, INEM / Bombeiros de Favais?



E da entrevista escandalosa de António Cunha Vaz, o promotor de marketing do PSD, para o Público (high-lights: I, II, III, IV)?




terça-feira, 6 de Maio de 2008

A cidade nova

Jacques Tati, Mon Oncle, 1958.

«Pensei nas antigas amizades e dei uma festa na cidade nova. Eu via entrar na sala donas de casa com afazeres na praça, decididas funcionárias públicas que mastigavam, ásperas, bolinhos secos, burguesas ricas acariciando cães e dando corridinhas, doidas, de encontro umas às outras.»
Armando Silva Carvalho, "O Alicate", 1972.

sexta-feira, 2 de Maio de 2008

O Youtube da Semana - Vertov I


"O Homem da Câmara de Filmar é o filme experimental [de Dziga Vertov, 1929] por excelência. Trata-se de uma autêntica iniciação aos segredos da linguagem cinematográfica. Com este filme, a ruptura entre o cinema e a literatura é total. Eis uma obra que nada, mas nada, deve a um suporte literário. É a mais bela exemplificação das teorias dos Kinoks como prática da utilização do material fílmico colhido da realidade e tratado pelos meios específicos do cinema.
Desta vez surge um actor num filme de Vertov - se assim nos podemos exprimir. Trata-se de Mikhail Kaufman, o homem da câmara de filmar.
A finalidade de Vertov era demonstrar a dualidade entre a vida tal como ela é na realidade do olho humano, instrumento imperfeito devido à sua natureza, e a realidade tal como é observada pelo olho da câmara.
Este cine-folhetim, na definição do autor, mostrava a vida sob mil aspectos numa grande cidade durante o dia, da madrugada até à noite. O homem da câmara de filmar às costas explorava a vida em todos os seus aspectos. Só com a câmara de filmar era possível penetrar no âmago do conhecimento humano, observando o comportamento dos homens, das mulheres e das crianças em todos os aspectos. E as máquinas também participavam no grande inquérito sociológico, deixando entrever a sua forte personalidade...
Para Vertov tudo tinha um sentido, tudo tinha uma alma a revelar. E a câmara explorava todos os seus infinitos recursos (movimentos acelerados e retardados, registo imagem por imagem, sobreposições, etc.) para revelar o homem através de uma bela sinfonia."

Vasco Granja

O Youtube da Semana - Vertov II

"Todos aqueles que amam a sua arte procuram a essência profunda da sua técnica.
A cinematografia, que tem os nervos à flor da pele, necessita de um sistema rigoroso de movimento exacto.
(...) Para poder representar um estudo dinâmico numa folha de papel há que possuir os signos gráficos do movimento.
NÓS estamos à espera do cine-gama.
NÓS caímos, levantamo-nos com o ritmo dos movimentos, movimentos lentos e acelerados,
correndo longe de nós, perto de nós, em cima de nós,
em círculo, em linha recta, em elipse,
à direita e à esquerda, com os signos mais e menos,
os movimentos curvam-se, erguem-se, dividem-se,
fraccionam-se, multiplicam-se por si próprios,
trespassando silenciosamente o espaço.
O cinema também é a arte de imaginar os movimentos das coisas no espaço, respondendo aos imperativos da ciência, sendo a encarnação do sonho do inventor, quer ele seja cientista, artista, engenheiro ou carpinteiro; ele permite realizar, graças ao kinokismo, o que é irrealizável na vida.
Desenhos em movimento. Esboços em movimento. Projectos de futuro imediato."

Dziga Vertov, in Kinifot, n.º 1.

quinta-feira, 1 de Maio de 2008

Pérolas - objectos abjectos de jornalismo


Já antes me tinha indignado em relação ao mau jornalismo prestado pelo canal público de televisão em horário nobre. Aqui escolhi como exemplo o programa Prós & Contras sobre o Novo Acordo Ortográfico, um programa onde foi manifesta a má preparação da jornalista-moderadora, Fátima Campos Ferreira. O programa foi todo ele um erro, a começar pelo grupo musical que iniciou o programa com as pronúncias do Português a várias vozes, passando pelas doutas palavras do tal senhor chinês que estava na assistência e acabando na escolha dos convidados (na mesa de debate estavam apenas críticos literários e escritores - só uma grande falta de humildade intelectual é que impediu estas ilustres personalidades de admitirem logo de entrada que percebiam mais era de bolos; pergunto eu: como é possível discutir ortografia sem incluir na discussão linguistas e filólogos? Estou a pensar no Prof. Malaca Casteleiro e no Prof. Ivo Castro, mas há muitos outros…). Esse programa foi inenarrável, nada menos que vergonhoso para qualquer canal de televisão, mas infelizmente, muito longe de ser uma excepção, é um sintoma do tipo de jornalismo sério praticado hoje em dia na RTP. Assim sendo, hoje vou dar início a uma nova rubrica que se chamará “Pérolas - objectos abjectos de jornalismo”.




Vou inaugurar a rubrica com a escrita da jornalista Maria Elisa Domingues, apresentadora do programa “Depois do Adeus” aos Domingos à noite (horário mais do que nobre, pois). "Como é que se vê a qualidade da escrita num programa de televisão?", pergunta-me o leitor (provavelmente único ou pelo menos de uma espécie rara). No começo de cada programa, a jornalista lê no teleponto um texto da sua autoria como que a querer introduzir o tema do debate que se seguirá. Pois bem, seguem-se excertos de algumas dessas pérolas, das pérolas de Maria Elisa (que podem ser confirmadas aqui - embora lhe gabe a paciência se o fizer, caro leitor), e, em destaque, comentários meus.

a) Sobre o incêndio do Chiado:
“Alguns noticiaram «Lisboa ardeu», muitos «a Baixa lisboeta ardeu». Embora não fosse verdade, pois o incêndio felizmente foi mais limitado no espaço, essas afirmações traduziam a carga afectiva e simbólica daquele que é o coração da cidade, sendo essa a nossa capital. Ardesse uma área mais extensa em Lisboa com os mesmos prejuízos e o impacto na opinião pública nacional não seria o mesmo.”

Da primeira pérola, destaco sobretudo o segundo momento, em que Maria Elisa contraria as expectativas lógicas de quem a ouve e acaba por afirmar uma daquelas verdades de La Palice. Diz ela que se ardesse uma área maior, o impacto não seria o mesmo. Pergunta quem ouve: mas seria um impacto maior ou menor? Não se sabe, apenas se diz que acontecimentos diferentes teriam consequências diferentes - o que é, diga-se em abono da verdade, uma afirmação segura. Do primeiro momento do excerto, destacaria o absurdo gerúndio adjectivo (“sendo essa a nossa capital”), que podia ser suprimido, substituindo-se "cidade" por "capital" - nem se perdia informação já que todas as capitais são cidades.

b) Sobre os problemas dos idosos portugueses:
“Depois do adeus à vida activa, e de uma forma mais acentuada quando por razões de saúde se tornam dependentes, os idosos enfrentam problemas de toda ordem, sobretudo de solidão, de dinheiro, de falta de resposta das estruturas de saúde e de apoio social e também de violência. Em Portugal os maiores cuidadores dos idosos dependentes são ainda as famílias, muitas vezes em condições de total abnegação e entrega, mas nem todos os idosos têm essa sorte. 13,5% estão em lares, dos quais, segundo o eurobarómetro, 63% da população portuguesa desconfia. Mas por razões financeiras e também do egoísmo próprio da sociedade que vamos construindo essa apresenta-se às vezes como a única solução.”

Esta segunda pérola é tão valiosa que nem se percebe. Um rebuçado a quem entender o que vem depois da primeira percentagem. O teleponto aqui deve ter saltado, espero. O que é engraçado é que, se aconteceu isso, não se deu por nada, de tal modo é tortuosa a escrita da jornalista.

c) Sobre o Maio de 68:
“De comum a estes dois movimentos [Maio de 68 e 25 de Abril] a luta pela liberdade: as liberdades mais básicas e essenciais, no caso da revolução portuguesa, a liberdade por uma outra forma de viver, em que houvesse mais participação de todos os cidadãos, em que fosse proibido proibir, quando pensamos nos slogans das barricadas parisienses. Em qualquer dos casos, foram movimentos tão profundos que depuseram regimes – um totalitário, em Portugal, outro democrático e liderado pelo líder da resistência aos nazis que foi o General de Gaulle.”

Para além do “liderado pelo líder”, que os ouvidos detectam na hora, o meu destaque vai para a subordinada temporal (“quando pensamos nos slogans…”). Aí deveria estar uma condicional (“se pensarmos…”).


d) Sobre o divórcio:
“Ainda que os conflitos familiares sejam altamente penalizadores para todos os seus membros, em especial os filhos se os houver, o divórcio continua a ser considerado, por isso mesmo, a segunda causa de stress, logo após a morte de um ente querido. Em Portugal, por diversas razões de que iremos falar ao longo deste programa, mas sobretudo em consequência da independência económica ganha pelas mulheres (temos uma das taxas de ocupação feminina mais altas da Europa), os divórcios subiram em flecha, depois do 25 de Abril, já que antes estavam altamente condicionados.”

Este parágrafo é ainda mais precioso do que os outros (que têm outras deficiências que não foram assinaladas; isto já vai muito maior do que eu queria). Maria Elisa começa com uma concessiva “Ainda que” e depois na oração principal procura anulá-la, com o “por isso mesmo”. Seria como dizer “ainda que esteja sol, eu vou à praia, por isso mesmo”. Uma pessoa com dupla personalidade (e que mudasse de personalidade a meio de uma frase longa) produziria uma confusão semântica igualmente encaracolada. Gosto também muito da “taxa de ocupação feminina”, sobretudo porque nos meios rurais isto pode significar “taxa de gravidez” – o verbo “ocupar” também quer dizer “ficar grávida”.
e) Sobre o liceu Pedro Nunes
“Mas já há muitos anos eminentes pedagogos se debruçavam sobre as questões da educação. Embora em 1927 75 % da população portuguesa fosse analfabeta e alguns vultos da cultura, como por exemplo a escritora Virgínia de Castro e Almeida, considerasse que essa era a parte mais linda da alma portuguesa, num liceu de Lisboa, o Liceu Normal de Pedro Nunes, fundado em 1905, introduziam-se práticas inovadoras, como os pátios de recreio, os vestiários ou as associações escolares, mas também bibliotecas, visitas de estudo ao exterior, laboratórios de física e de química.”

Este texto tropeça muito até chegar aqui, mas o meu destaque vai para “as práticas inovadoras”. O problema é semântico, claro. Como é que “pátios de recreio” podem ser práticas? Se conseguissem ser práticas, seriam inovadoras, com toda a certeza. Até inéditas e inauditas. Também os vestiários não são práticas, vêm depois da prática desportiva (talvez isso tenha confundido a jornalista). Nem as bibliotecas, nem o resto.


Neste mesmo programa sobre o liceu Pedro Nunes, Maria Elisa diz (e diz de forma correcta): “Ouvimos com frequência dizer coisas como: os alunos de hoje em dia não sabem escrever; os alunos chegam mal preparados à faculdade.” Pois, o problema é quando os alunos saem das faculdades sem saber escrever e depois vão para a televisão. Mas isso acontece só hoje? Ou aconteceu no passado?
O meu leitor, esse sim mesmo precioso, até pode pensar que estes textos, muito mal escritos como estão, na oralidade-simulada-do-teleponto passam por textos correctíssimos. Olhe que não, olhe que não. Convido-o a fazer o teste: vá até ao link que coloquei lá mais para cima e escolha ver o começo de um programa qualquer e veja, como eu vi, a jornalista a engasgar-se no próprio texto que escreveu. Falta de apuro profissional, digo-lhe eu. São textos escritos em cima do joelho e, provavelmente, directamente no teleponto. Devia era ter feito como o Eduardo Pitta, que só vê no máximo meia-hora destes programas (pelo menos é o que ele diz aqui e aqui). Realmente chega para ficar com uma (má) ideia do conjunto.