sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

Youtube das muitas semanas – The Twilight Zone e The Muppet Show

Aquilo que tinha sido pensado como semanal começou a demorar-se mais e por isso agora o título mudou para “Youtube da Temporada”. Assim não se geram expectativas na cabeça dos muitos leitores (!), nem crises de consciência nas cabeças dos que gerem este espaço. Antes da pausa de alguns meses deixámos aqui um episódio inteiro (intitulado “Time enough at Last”) da série The Twilight Zone, talvez um dos episódios mais interessantes da série toda. Contava a história de um homem que queria ter tempo para ler, mas que tinha de viver com o facto de ninguém respeitar o seu gosto pela leitura. Por fim acontece o apocalipse e apenas esse homem fica vivo à superfície da terra. Por entre os destroços do desastre mundial descobre toda a comida de que pode necessitar alguma vez (enlatada) e os livros todos de uma biblioteca. Parece que finalmente teria todo o tempo para ler, sem se preocupar com outras questões de sobrevivência. Tudo correria bem, não fosse ele necessitar de óculos para ler, óculos que irremediavelmente pisa... Pode ser revisto aqui.
O primeiro Youtube seleccionado depois da pausa foi um sketch célebre do espectáculo televisivo The Muppet Show. O sketch foi sendo actualizado e a versão que escolhi foi a de 1976. A música é muito viciante e por isso cuidado se a quiserem rever aqui (o mais provável é que a fiquem a cantarolar durante os próximos dias). A música foi composta por Piero Umiliani para um documentário extremamente moralista sobre a revolução sexual na Suécia (Svezia, Inferno E Paradiso,1968 - podem ver o trailer aqui). A cena que acompanha a música neste pseudo-documentário soft-porn tem a ver com a entrada de raparigas suecas numa sauna e com a sua permanência em trajes menores na mesma (os filmes que vêem as pessoas que pensam e criam programas infantis e familiares...). De alguma maneira esta música saltou destes territórios duvidosos para outros e em 1969 apareceu na Sesame Street e no The Muppet Show. A música foi um êxito imediato. A publicação aqui desse Youtube foi motivada pela promessa de regresso agendado para o Natal deste ano dos simpáticos marretas. Eles já começaram a invadir o youtube com sketchs novos (aqui o Lúcio publicou um, mas há mais novidades no youtube). Aqui fica mais outro aperitivo, mas de outra natureza, nostálgico:

Parece que chegou o Outono


quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Troca de emails

Resolvi aceitar este repto e escrever o email para a bancada socialista. Recebi esta resposta da deputada Teresa Venda,
Ex. mo Sr Lúcio Ferro,

Registo o seu e-mail que me suscita o seguinte esclarecimento.

É um dever de cada deputado participar nas votações (Artigo 159 Constituição da Republica ) , assim no próximo dia 10 de Outubro o meu voto será contra o Projecto de lei nº 206/X e o Projecto de Lei nº 218/X.

Assumo esta posição sem qualquer subordinação à orientação do Partido Socialista. Comm esta posição não há da minha parte qualquer discriminação motivada pela “orientação sexual”. São opções individuais respeitáveis, considero contudo que o casamento entre homem e mulher ou uma união homossexual são situações objectivamente desiguais que, precisamente na perspectiva da natureza e das finalidades destes institutos, justificam um tratamento diferenciado, que podem vir a ter um quadro legislativo que proteja um conjunto de situações, designadamente patrimoniais, justificado por uniões homossexuais estáveis, ou outras formas de convivência estáveis, mas não a consagração da universalidade e a igualdade no direito ao casamento

É orientação unânime da doutrina e da jurisprudência a de que o princípio da igualdade não veda (e pode até impor em algumas circunstâncias) tratamentos diferenciados: proíbe que se trate de forma desigual o que é objectivamente igual, mas não que se trate de forma desigual o que é objectivamente desigual. Se o tratamento diferenciado se funda em motivos objectivos, racionais e justos, e não subjectivos, arbitrários ou discriminatórios, não contraria o princípio da igualdade, quando se exige que o casamento se celebre entre pessoas de sexo diferente. Trata-se, simplesmente, da natureza intrínseca deste instituto, que nem sequer é criada pelo legislador, sendo que este se limita a reconhecê-la.[1]

Cumprimento

Teresa Venda
Deputada Independente do GPPS
A minha resposta foi a seguinte:
Ex.ma Sra Teresa Venda,
Começo por agradecer-lhe a sua resposta ao email meu e colectivo. No entanto, foi com alguma surpresa que li o que escreveu, porque acaba por repetir na essência as palavras da líder do principal partido da oposição, Dra Manuela Ferreira Leite, em horário nobre de televisão. Também a senhora deputada diz discriminar coisas que são diferentes e aqui reside a minha surpresa. De que forma são diferentes?, é a minha pergunta imediata. Quando duas pessoas com base nos seus sentimentos decidem iniciar um projecto de vida a dois, efectuam um contrato social para que a lei e a sociedade as reconheçam como casal. A este contrato social se chama casamento. Poderá dizer que o conceito de casamento é um conceito que historicamente tem sido aplicado a uniões legais entre pessoas de géneros diferentes. A isto eu respondo-lhe que o casamento, na nossa sociedade, em teoria e em prática, tem mudado muito ao longo dos tempos. Mais não seja porque hoje é possível pôr-lhe um fim outro que não seja a morte (divórcio). É um conceito que se tem adaptado à evolução das mentalidades e às mudanças que a nossa sociedade sofreu (a principal das quais talvez seja a emancipação das mulheres e o seu posicionamento na família). Mesmo o conceito de família mudou (é por isto, que hoje se fala de "família tradicional", quando se quer falar de uma família patriarcal, com um chefe de família demarcado - homem - e restantes subordinados - mulher e filhos; há menos de um século esta não era a "família tradicional", esta era A família). Por reconhecer que nem o conceito de casamento nem o de família são estáveis (porque a própria sociedade o não é), é que me custa a entender que aceite de ânimo tão leve que casamentos (a sério) são casamentos entre pessoas de géneros diferentes e que para os outros o que pode haver é uniões (que são muito diferentes e, na verdade, não são a sério). A pergunta que pode e deve fazer a si própria, quando votar no futuro a respeito deste assunto, é: e se, quando se decidiu pelo direito de voto das mulheres, houvesse deputados a reconhecer as diferenças (físicas e possíveis de discriminar) entre os dois géneros e, com base nessas diferenças, a decidir o seu sentido de voto? Ou ainda: e se, quando se decidiu abolir a escravatura, os legisladores de então reconhecessem as diferenças (físicas e possíveis de discriminar) entre as raças humanas e com base nessas diferenças decidissem o seu sentido de voto? É que, como qualquer lesgislador, a Sra deputada tem de ter consciência que é muito mais fácil reconhecer as diferenças e discriminar do que reconhecer as semelhanças e aceitar. A evolução humana tem ido pelo caminho mais difícil e é só assim que o projecto humano faz algum sentido, parece-me.
Com os meus melhores cumprimentos,
Lúcio Ferro

sábado, 4 de Outubro de 2008

A Crise na Justiça


"A Victim of Society", George Grosz (1919)

Ah, o Rogério diz aqui que o Supremo Tribunal não podia ter agido de outra forma, que não podia contestar o que tinha sido antes considerado matéria provada (erradamente, pois). A minha pergunta continua a ser: de que serve recorrer ao Supremo Tribunal, se, mesmo nos casos como este em que a avaliação dos dados disponíveis foi manifestamente incompetente, não é possível qualquer reavaliação?

quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

Vergonha


Aquilo que peço aos nossos leitores, se é que algum dos poucos que seguiam este blog antes das férias já se apercebeu do nosso regresso, é um pequeno intervalo dos disparates que costumam acontecer neste vosso espaço para falar de um assunto muito sério e que vem noticiado aqui. É uma vergonha fazer parte de um país onde é possível despedir alguém, porque esse alguém é portador do virus da Sida ("por justa causa"). Tem havido campanhas atrás de campanhas médicas a dizerem que não faz mal conversar com pessoas que têm esta doença, porque o virus não se transmite pelo ar; que não faz mal abraçar doentes com sida, porque o vírus não se transmite pelo toque; que não faz mal beijar ou comer a partir do mesmo prato ou usando os mesmos talheres, porque o virus não se transmite pela saliva - E AGORA ISTO? O sinal que o Estado deu, por meio das sucessivas decisões de juízes, foi o de que devemos evitar o contacto com doentes destes. Isto traz à memória a figura andranjosa do leproso na Idade Média, que era obrigado a mendigar o resto da vida e a assinalar a sua passagem por meio de sinetas, quando a lepra não se transmitia pelo toque ou pelo ar (como se veio a descobrir muito mais tarde). Na Idade Média ninguém sabia disso e agiam assim à cautela. Os espíritos que (con)viveram com esse estado de coisas têm isso que os iliba, mas, hoje, sabendo nós com segurança de que forma esta doença é transmitida e quais os meios de prevenção, temos a obrigação MORAL de agir de modo distinto. Aquilo que se exige numa sociedade esclarecida e justa é que se tratem os seus doentes de forma adequada, digna, humana.
Depois, os avanços médicos das últimas décadas no combate a esta doença permitem prolongar imenso a vida dos doentes (já houve inclusivamente quem se referisse a esta como uma doença não fatal, mas crónica). Se os doentes vivem muito mais tempo e em boas condições, a sociedade tem de arranjar meios de os integrar, não de os segregar. O que se pede é a mesma igualdade de direitos que nunca foi negada a estes cidadãos antes de contrairem a doença. Não lhes dificultem mais a vida, porque isso é imoral. É como estar a atirar pedras a uma pessoa fragilizada - é fácil, é primário, é cobarde.


[Esta matéria é grave e, num país normal, exigiria que o Presidente da Republica fizesse uma declaração pública que repusesse a confiança nas Instituições e na Justiça. Como o país é de brandos costumes, ele anda aí numa de pateta aos caídos.]

Ou era ele ou era o elefante do jardim zoológico e o Cavaco não precisou de moeda

"A New York Stock Exchange (NYSE) está a ter dificuldades em encontrar pessoas que queiram tocar o sino de abertura e encerramento da sessão devido ao agravamento da crise financeira. A abertura da última sessão – a primeira depois do Dow Jones ter registado a maior queda pontual de sempre (menos 778 pontos) foi assinalada por um operador anónimo da bolsa de Nova Iorque, noticiou o “New York Times”. A actriz Missi Pyle, protagonista do filme “Galaxy Quest”, recusou o convite para tocar o sino de encerramento da sessão. Na semana passada, a abertura da sessão da bolsa de Nova Iorque foi assinalada pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. O Presidente da República abriu a sessão de 25 de Setembro acompanhado por Duncan Niederauer, CEO da bolsa de Nova Iorque, no “Podium Bell” às 09h30."